Dia 11 (quinta-feira) consulta médica no Porto. Carro estacionado no NorteShopping. Metro até à estação da Trindade. À saída viro à esquerda e subo a Rua do Bonjardim, à procura do n.º 505 – Livraria Central Comics. A porta, fechada, é-me aberta por uma presença feminina – bom sinal, detesto levar nos olhos quando entro, apesar de raramente, em lojas especializadas, com um Jeff Albertson.
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Até ontem já tinha lido o nome Central Comics, sobre a loja falarei noutro post, em blogs e em comentários em blogs – que redundância – mas nunca associei que seria uma loja especializada em banda desenhada (BD) e muito menos existente no Porto; faço este reparo para se perceber um pouco o meu alheamento.
Até ao último festival Internacional de Banda Desenhada do Porto tinha um contacto constante com o universo de (BD). Recordo-me de que no último festival levei o meu fiho e um casal amigo – o meu filho divertiu-se imenso com a exposição temática sobre Gaston Lagaffe e eu diverti-me com ele e com o pulsar do salão, das exposições, das compras. Após isso afastei-me? da BD e as compras eram sempre álbuns dos “velhos” autores e mangá – muita mangá.

zona fantástica, capa (2)
Não tendo uma BDteca invejável tenho uma BDteca considerável cheia do que eu chamo os meus “velhos” autores. “A Balada do Mar Salgado” e “Silêncio” editados pela Bertrand, entre outros, foram o trampolim para outras alturas; algumas edições em francês, são-me queridas como “Un Été Indien”, “La Marque de la Sorcière” e “Starwatcher”; “Os Olhos do Gato”, da editora brasileira Martins Fontes e “Eternus 9: Um Filho do Cosmos” de Victor Mesquita também têm o seu devido destaque, sem esquecer alguns álbuns assinados pela dupla Schuiten e Peeters e por Miguelanxo Prado.
Apesar do meu amigo p. (creio que esta palavra da minha parte faz sentido) saber deste meu novo poiso, relaxado como é, ainda não deve ter actualizado o RSS e por isso arrisco-me a dizer que a única loucura que cometi foi ter-lhe oferecido da minha BDteca, tendo em conta que detesta ler exceptuando livros com muitos desenhos, a minha colecção “Torpedo 1936″.
Quando descobri que “Os Passageiros do Vento” iam ter um novo? final? comecei novas investigações e encontrei excelentes blogs sobre banda desenhada. Um deles é Leituras de BD o qual leio com frequência regular e que fornece à minha medida uma panóplia de novidades de novos e velhos autores. E com este blog iniciei a ler sobre a minha redescoberta paixão e, também, tomei conhecimento da nova BD feita em Portugal por portugueses que não me tem desapontado.
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Na sequência da resposta do Nuno Amado à minha pergunta “Vou ao Porto a uma consulta no dia 11 e vou experimentar a Central Comics. O que me dizem?” desloquei-me logo que saí na Trindade à Central Comics e comprei apenas, porque não sabia o que ia encontrar?, “Zona Fantástica”, “As Incríveis Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy” e “Zona 0″ – “Hagar 1″ foi uma compra extra.

descida ao inferno (3)
O resultado da compra foi obrigar-me a colocar de lado os livros, “Suite no Hotel Crystal” e “Os Prazeres do Ócio”, que levei para ler enquanto esperava pela minha consulta, e mergulhar no “Zona Fantástica”. E escrevi este longo texto obsessivamente cheio de pormenores para chegar a esta parte da história: a leitura do “Zona Fantástica”.
“Zona Fantástica” tem de tudo para ser uma edição que servirá de referência a projectos futuros.
Deve ter sido uma tarefa árdua a organização de todo o material que foi escolhido e “posto de lado” para que esta “Zona” seja uma BD no seu conjunto “Fantástica”. E só isso merece desde já o meu clamoroso aplauso, mas ainda ser oferecida BD em 80 páginas de grande qualidade gráfica e excelente paginação nas quais estão representados 34 autores é de exclamar um bom uau!
Se há autores que se movimentam bem em histórias curtas, outros demonstram alguma inexperiência? dificuldade? (não os conheço suficientemente bem para clarificar o motivo) na narração; e sem dúvida que pode ser mais difícil para alguns autores criar uma história de 3 pranchas – onde tudo tem de ser dito ou em que a conclusão fica dependente da nossa leitura – do que criar um álbum de 80 pranchas.

descida ao inferno, prancha (4)
A vantagem de ser um outsider do circulo de BD nacional, não sou amigo, colega, ou remotamente conhecido de algum dos autores e portanto não sofro do pecado de-dizer-bem-do-teu-trabalho, para-dizeres-bem-do-meu, é que posso dar-me ao luxo, nem sofreria desse “pecado” mesmo que fosse um, digamos insider, – é um dos meus problemas, a sinceridade acutilante – de ser verdadeiro nas minhas opiniões sobre os trabalhos individuais após enaltecer o trabalho colectivo. E numa critica espontânea limito-me a dizer que, como gosto de Stoa porque sim, e não gosto de fanecas porque não, há histórias que adorei porque têm uma cor, uma textura, um estrutura narrativa que se aproxima do que sempre apreciei em BD, outras reconhecendo a qualidade do argumento e do desenho não me tocaram em especial. Adorei mais ver as ilustrações de Eduardo Monteiro, por exemplo, mas apenas porque sempre adorei ilustrações “mecanicistas”, mas tenho de referir, igualmente, que a ilustração (pág. 38) de Joana Afonso é simplesmente delirante.
De uma forma geral é a verdadeira qualidade dos valores individuais que tornam o colectivo excelente. A escolha dos melhores? trabalhos do meu ponto de vista tem sempre a ver com o nosso gosto pessoal.
Vejo-me obrigado sem ser cáustico no meu apontamento, porque não é o meu estilo, a revelar em concreto o meu processo mental enquanto li uma história em particular:
“Descida ao Inferno” com argumento de Nuno Amado e desenhos de Pedro Nascimento – a umas certas vinhetas pensei, pelas semelhanças, no Incal e em Beowulf e… no final da última prancha disse de forma audível, o que provocou um olhar, esse sim corrosivo, da minha mulher, uma expressão que revela extrema admiração, grande espanto e por vezes indignação – “fodeste-me”!
Foram umas boas leituras.
O meu obrigado a todos os que tornaram possível ter na minhas mãos uma BD Fantástica!
edição e design: André Oliveira e Fil
capa: Carla Rodrigues
logotipo: Eduardo Monteiro
revisão dos textos: André Oliveira e Joana Catarina
tradução da BD “3 Eyes”: Fil
publicado por: Hugo Teixeira, 80 páginas, 1ª edição (mar.2010)
isbn: 978-989-96174-3-8
imagem (1) e (2)
descrição: capa do livro “Zona Fantástica”
baixa resolução: sim, 72 ppi
finalidade: para fins informativos no contexto do post zona fantástica
fonte: Leituras de BD
imagem (3) e (4)
descrição: capa e prancha da história “Descida ao Inferno” incluída no álbum “Zona Fantástica”
baixa resolução: sim, 72 ppi
finalidade: para fins informativos no contexto do post zona fantástica
fonte: Leituras de BD






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Mas afinal… gostaste da “Descida” ou ficaste só “fodido”?

A “Descida” foi para ganhar experiência, pois eu e o Pedro estamos a trabalhar num projecto maior.
E na generalidade, o que achaste do livro na sua totalidade?
Abraço
Adorei a descida. Fiquei “fodido” porque comecei a pensar “hummm já vi esta cena de metamorfismos aqui e acolá e deduzi a priori que isso ia estragar uma história que tinha já um ambiente fascinante e quando recebo aquele mind twist final disse: “fodeste-me”, no sentido de de ter levado um nó – esperava tudo menos aquilo – e deixar de tomar as coisas como garantidas. As cores dos desenhos combinam perfeitamente com a história.
No geral é um livro excelente que me divertiu imenso ler. Espero ver outros livros assim. Se é para pontuar dou na escala de 10 um 15. Pela qualidade gráfica, pela diversidade de géneros, de autores,… Uma macedónia verdadeiramente bem temperada. E digo-o com um sentimento de pura verdade porque o contrário também o diria. Todos que se empenharam neste projectos merecem criticas negativas (se assim alguém o entender) ou positivas, mas acima de tudo, criticas verdadeiras. E esta é a minha.