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porquê sr. matias?
01.09.2010arquivado em: blog, quotidianos, tinta fresca 1
porquê sr. matias?

Já não era apenas quando chegava de férias que encontrava o meu porta lápis desprovido de canetas, de lapiseiras, de lápis, de tesoura, de corrector, de réguas, de afia lápis, de corta papel, de borrachas, de tira-agrafos, de x-acto, mas tal coisa nunca me ralou, apenas perdia por tradição alguns minutos a pensar quem teria levado o material tendo em conta que eu era o único funcionário no escritório, porque assim começava o trabalho com novo material e adoro especialmente afiar o novo lápis, a ponta fica fina como um estilete; é a única tarefa que realizo com imensa atenção e prazer, mas actualmente era a qualquer momento que as minhas coisas saíam do lugar e o culpado tinha agora rosto. Quando dou por mim até a minha dedeira de borracha estava a ser usada pela minha nova colega de escritório. A sua mesa de trabalho está colada ao tampo angular colocado à direita da minha secretária. Eram ainda 09h45m e depois de diligentemente alfabetizar uma série de documentos e esticar a mão para pegar numa pinça clipe que sabia estar, cegamente, sempre naquele sítio da secretária encontro o espaço vazio. A pinça clipe estava, agora, pendurada no lado esquerdo do calendário de mesa da nova colega, que publicita aquele restaurante que serve comida intragável, sem qualquer objectivo que não uma pretensa decoração. Para agravar o meu estado de espírito enquanto fui buscar outra pinça clipe uma das folhas alfabetizadas foi virada de costas para a colega tomar nota de um número de telefone – usou uma caneta. Pressentia nas costas uma sensação de gozo silenciosa sempre que me deslocava para trazer novo material de trabalho. Suava nessas deslocações. Não pensava num buraco, mas numa enorme cratera. Não sou cobarde. O que detesto são confrontações físicas; penso que a inteligência supera qualquer adversidade.

Não se julgue que não tentei explicar, eram 10h.15m, que aquele material que desaparecia do meu porta lápis, da minha secretária é para ser usado por mim, mas ela respondia sempre “que não tinha nome”, “que podia ser utilizado por qualquer um”, “que de onde vinha ninguém se importava com esses pormenores”.

Como foi possível o Sr. Matias, estimado chefe da empresa em que trabalho desde os meus 23 anos, homem digno, um senhor, com uma grandiosa visão para o negócio, que gere com mão de ferro a empresa inaugurado pelo seu pai em 1938, contratar uma nova funcionária para me ajudar. Como foi possível o Sr. Matias pensar que eu precisava de ajuda? Com estas duas elucubrações colei um papel com o meu nome na nova caneta, no novo lápis, mas até isso não resolveu os problemas de propriedade. Verifiquei que os papéis com o meu nome eram retirados e colocados por ela, por gozo só podia ser, no meu caixote do lixo – 10h45m.

Porque não me impus? Primeiro ponto: é burra, não literalmente. E afirmo isto não porque a comecei a odiar de corpo e alma, mas atendendo ao facto de só conseguir descobrir até às 11h03m que as suas aptidões a um nível máximo são carimbar, agrafar, ligar e talvez (ainda não eram 18h00m) desligar o computador – tem imensos amigos no MSN – e surripiar o meu material. Haverá alguém que consiga falar com uma pessoa que zurre sempre “És mesquinho!”, “Sê um bom colega!” a qualquer chamada de atenção? Eu não sou capaz e nego-me a vir a ser essa pessoa. Segundo ponto: é feia, ridiculamente feia. Só com grande esforço se consegue olhar para ela. A nova colega deve ser o resultado da primeira experiência falhada do Dr. Frankenstein ou a consequência de uma relação sexual com goblins ou o zigoto sofreu uma alteração altamente marada no ADN.

Não consegui realizar qualquer tarefa digna de nota e já estava quase a dar por terminado o turno da manhã. O suor surge em excesso. O prazer que tinha em afiar os lápis foi anulado não apenas pela presença da besta, mas igualmente pelo facto de ainda não ter compreendido a razão que levou o Sr. Matias a contratá-la. Não podia ser de natureza sexual. Ela é horrenda. Por ela não haveria odes de amor. Nem identifiquei qualquer fetiche em que ela possa ser usada. Imaginem uma lesma; não, imaginem antes uma cabaça; melhor não tentem imaginar nada.

Pensei e repensei numa estratégia que evitasse os assaltos da “colega” às minhas ferramentas de trabalho. Continuei a afiar o lápis. Parti-lhe a ponta e isso irritou-me mais do que o atraso de 3 horas do médico de clínica geral do centro de saúde na semana passada, mais do que a mão nojenta do pedinte que me tocou a pedir algumas moedas para bagaço. Fiquei momentaneamente cego. Sinto-me, sei que sou, uma pessoa equilibrada. Saio de casa às 7h45m e sento-me na cadeira em frente ao meu computador pontualmente às 8h55m. Às 09h00 o computador já está com todos os programas necessários abertos e já coloquei simetricamente um lápis, duas canetas (uma azul, outra vermelha) e uma borracha ao lado do teclado para qualquer apontamento que venha a ser necessário assinalar – registar informação, vincular informação são quatro palavras mais fortes do que qualquer credo. Sou metódico, persistente no trabalho e esta colega tornou-se a minha Nix. Tal é inaceitável. Então, contrariando todas as minhas fibras, com um esforço enorme de vontade afiei um lápis dos dois lados – sacrilégio eu sei – para que fosse visto por ela como a peça repulsiva que era. O que fez ela? Exclamou “que lindo efeito ora deixa ver” e nesse instante arrancou-me abruptamente o lápis da mão e escrevinhou no meu impoluto bloco, até à data imune aos seus ataques, uns gatafunhos nojentos; ambas as pontas foram quebradas. Olhei para ela embasbacado, olhei para as páginas brancas danificadas – na sua tentativa violenta de traçar algumas linhas as pontas do lápis afiadas como lâminas finíssimas furaram diversas folhas. Foi a única altura do dia que consegui olhar sem qualquer efeito de náusea no estômago a sua cara. “Não deves saber afiar um lápis. As pontas partem com tanta facilidade!”, disse-me ao mesmo tempo que deitava no meu caixote do lixo o lápis. “Tens razão, devo ser mais perfeito nessa tarefa. Vou buscar mais um para treinar. Ainda tenho 5 minutos antes de sair para almoçar”, respondi abafando a raiva.

Desta vez não peguei num simples lápis n.º 2 que já tinha uma mina de alta resistência à quebra; retirei da caixa de lápis, reservada ao Sr. Matias que usava nas reuniões importantes para desenhar tetas no seu bloco de notas preto encadernado a couro, um lápis de grafite com 22 cm, com mina B de 4mm, com 7,6 mm de diâmetro feito de madeira 100% reflorestada, de formato sextavado. Afiei o lápis com uma delicadeza e perfeição ímpar ao som dos acordes do Adagio for Strings de Samuel Barber (música ambiente). A nova colega olhava embevecida para o meu trabalho. No final obtive uma ponta mais fina do que um estilete e de alta resistência. Sorri, então modestamente, para a colega que entretanto se tinha debruçado sobre a minha secretária e entreguei-lhe o lápis desta vez e sem qualquer esforço pelo pescoço adentro. Não sangrou nem estrebuchou. Foi a única altura que a senti bonita. Era uma bela a morrer – 12h30m em ponto. Coloquei o computador em suspensão, desliguei o monitor e levantei-me para almoçar. Sempre fui uma pessoa de boas rotinas.

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